quarta-feira, 17 de junho de 2015

Antes e após fazer sem-ti-dor

Eu não me importo se você continua mentindo para mim
Eu não me importo se você mente para mim
Você continua preso a mim

Eu começo a rir de desespero por saber que largo sem saber
E o sabor desaparece após muito me chupar
E começas a sentir o gosto da tua própria boca
A fonte seca após muito jorrar
E meus lábios necrosam com a ausência do dito que não digo

Lambo-me com o que digo
Sílaba por sílaba, osso por osso
Articulo minhas palavras com maestria sem mãos, sem mães
Sei o que e quando usar
Palavrões não me dizem o que chupo das palavras pequenininhas

Há um saber todo especial entre tua virilha e o meu nariz
Desconhecia tal saber, sempre desconheço, lambo-te-não-me-lembro
Agora tenho que administrar o que passei a sabor
Não tem como passar a sem ser passado
Atravessado, através disso, partículas permanecem e eu fico

O quanto e como quero?
E tu achas que me importo se mentes ou não para mim
O maior enganado é o enganador
A dor o engana mais ainda
Sem localizar, ele não sabe por onde sofre, nem como sofre

Mas só sabe depois, pois eu fico
Os seres de amores são seres tapeadores
Que merda eles não tapearem a morte ao invés de me tapear
Cavar a cova: eis a burrice maior dos tapados
Saber sem sabor: eis o que não fica

Eu o deixo,
Ele morre.
E nem gasto minha saliva

Depois de ter sem-ti-dor:

Pego as letrinhas e começo a esticá-las
Vou treinando para elas não servirem
As que podem romper, uso
E minto para a morte
Digo que ainda tenho que terminar um poema
Como as letrinhas para me vestir por dentro
Brotam letrinhas de minhas unhas
Elas não valem dinheiro
As minhas mães são sujas o bastante
Elas parem sem parar
E só minto para a morte
Mas isso não importa
Pois nem paro para parir