sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O Pátio

Não sei ao certo o que estou sentindo. Se eu morresse agora, ninguém perceberia a ausência do meu corpo lânguido pela casa. Meu corpo de olhos tristes e de sorriso bobo. Alterno as minhas visões e não me enxergo. Ninguém me enxerga. Sinto-me o inseto na cama, não percebem que eu não estou na cama, deixam-me dormindo. Entram no meu quarto, sentam na minha cama, eu-inseto sou esmagado. Sentam em mim e eu morro. Mas não há falta. Desencontro-me no hospital, estou deveras doente. Ele não sabe me dar muito carinho. Assim ele foi domesticado. Assim eles foram domesticados. Ela já se foi há muito tempo. Sinto falta. Entro-me em meu corpo mais uma vez, esses estados de doença sempre são os momentos pensativos. Desliguem os aparelhos, quero seguir por aquele pátio. Escuto o perfume dela. Será que ela veio me visitar. Finalmente vou poder abraçá-la novamente. Começo a ser musicado e ela cuida de mim e dele que está do meu lado direito. Ele-doente preso na cama. Olho para o encontro das arestas, o superior direito. Vejo flores. Aquelas flores; são aquelas flores das quais tanto falei, das quais tanto sonhei. Flores roxas abriam um portal, rosas, nenhum espinhos, pulávamos alegremente por entre as rosas. Eu seguia o pátio coberto de flores roxas. Eu caminho o pátio, o pátio caminha em mim. Aquele pátio, onde daria. Via-me dançando, pulando, brincando por entre as flores com ela. A verdade é que, eu daria tudo para ter apenas mais um dia com ela. Só um dia. Daria toda minha vida. Estou doente, estou cansado. Só ela sabe curar todas as minhas feridas. Vou-me cicatrizando. Passa as mãos por entre meus cabelos. Cabelos ao sol, o cheiro de música. Eu canto. Se eu canto, é para quem ama. Se eu canto, é para ela. Se eu te amasse, ela que me ensinou. Quantas saudades. Nunca me esquecerei dela. Mela meus olhos com poeira cósmica. Mela meus olhos de poeira cósmica. A dança eterna. Eu vou renascendo feliz. Que saudades senti de ti!
Acordo, três horas da tarde. Mais uma vez, deixaram-me dormir até mais tarde. Do lado dele, várias pessoas choravam tentando desentortar o corpo que esteve em posição fetal durante a viagem. Tarde. Ele não quer caixão. Em nome do Útero, do Universo, e da Mãe. Enquanto isso, redescubro o sorriso dela. Estou amando. 
- Como assim? Como você finge sentir tudo isso? Por que você escreve isso? Para quem você quer mostrar essa mentira? Você sabe que foi você que matou sua mãe. 
Silêncio reina no quarto. O adoentado reina na cama, ele nunca sentira tanta intimidade com alguém como teve com aquela cama? Aquela cama conhecia o odor e a dor do corpo do doente. 
- Vamos! Você sabe! Você sabe que foi você que a matou!
Ele gritava e pulava. O doente deitado na cama. A cama deitada no doente. Eles se conheciam? Foi você que matou minha mãe! Foi você! Vamos, você sabe... Tínhamos que acabar com isso. Tínhamos que mudar a página. Ele gritava por dentro, da cama, de dentro da cama, com os olhos assustados de uma criança.
- Para que você foi contar tudo isso para ela? Ela não precisava saber de tudo isso.
O doente nada respondia. Que doente? Havia alguém ali na cama? Eu existo.
- Não deveria contar algo para ela. Você disse aquilo e ela não suportou. Todas as noites eu visitava seu quarto para tentar lhe-se salvar dessa loucura na qual está-ou ainda. Percebes?
O doente não falava algo. Mas é claro que ele não falava. Ele aprendera a arte do silêncio com o irmão que sempre silenciara tudo na vida. Quem matou mamãe? Você é o culpado. As flores dançavam sobre a cabeça do doente. O doente conhecia determinadas flores. Eles nem se olhavam, assim como um agricultor tem desprezo pela vaca que serve de depósito sexual.
- Vamos, diga-me? Conte-me o que contaste para mamãe? Disseste algo sobre vós, não foi, vagabundo? Sabes bem que não participo dessa loucura que tens.
De dentro da cama, ele ouvia aquelas palavras bem destacadas. Faladas como um poema. Ele olhava para ele com um terror indizível.
- Tentei te salvar da tua loucura. Bem... Tentei. Tentei te converter em homem, algo que tu nunca foste forte como eu? E nem comia. Não sabes comer. Não sabes provar desse prato que te apresento todas as noites e sempre quem come sou eu. Para completar, aceitou-te fraco, fraco que és e contou para mamãe. Ela, com toda certeza, morreu de desgosto, morreu de desgosto mesmo, desgosto do filho que tem. Todas as noites, eu estava aqui a tua disposição para servir-te bem como quisesse. Aquietou-te, porém, e tentou me paralisar. Momentos de espasmos. Mais de dez segundos fora do consciente. Adentrava profundamente e tentei te resgatar. Mas foi tudo em vão. Veja bem o que fizeste tu! Como foi feito. Sempre paparicado. Com todos os cuidados. Lias e lias. E eu com a enxada na mão sempre te percebendo o quão fraco és. E agora vejo-te no meio de poesias, que desgraça! Viva e aceite seu corpo tal como ele é. Deixe de me recorrer, pois estou tentando ser forte cada vez mais. Tentarei não ceder mais, embora atraente sejas tu. Sabes que sou o único que te conhece, mas não aceito: você matou sua mãe! Ela não suportou te conhecer e se foi. Como pudera ser tão indigno de tal amor. Você nunca soube nos amar. Você nunca soube me amar! Sempre só se aproveitou de mim. Veja só como estou. Sempre me posiciono e permaneço enquanto você lê.
Os gemidos doloridos foram ouvidos, o doente partia para outro plano. De olhos fechados. Prazer e dor. O pátio iluminado e miscível. Algo entre o dormindo e o acordado. Ele urrava com todo desgosto. Eles eram salvos, graças a Deus. Aquele pátio de flores roxas começava a ter um cheiro diferente. Seria um cheiro diferente ou um cheiro nunca aceito? Agora poderia, ele, trabalhar mesmo depois de exausto. Tremulações. Você nunca terá controle do incontrolável! Começava a escrever: o gozo desconhecido.
- Como ousas me trair?

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Aquilo que aquilo é

Ninguém notará ausência no
que ausente sempre foi, no que
presente nunca foi.

Com poucas presenças,
percebi que posso viver sem.
Viver com não sei se seria melhor,
pois não se fez presente,
e sei que consigo viver sem.

O que presente nunca foi,
sei que presente nunca será.
E olhe que há presentes que estão ausentes.
Mas que pena:
o ausente não se fez presente
no meu viver

. Eu não sei viver com
quando estou vivendo sem,
não sei mentir para mim.
Eu não sei viver com
se nunca vivi com.

Aquilo que é ausente
Distante sempre estará
Aquilo aquila como só aquilo aquila
Isso issa como só isso issa
Isto ista como só isto ista

Ninguém notará ausência
no que ausente sempre foi,
no que presente nunca foi.

Como senti aquilo!
Minha psiqué só dança dentro de outra psiqué
Meu aquilo só aquila dentro daquilo
Meu isso só issa dentro disso
Meu isto só ista dentro disto
Meu eu só nós dentro de ti
Adentre-me
Teu eu só nós dentro do meu tu
Adentre-me mesmo que
Nosso eu só nós dentro do nosso tu
Adentre-me mesmo que inabitável pareça

Ninguém notará nossa ausência
Aquilo nunca foi ilusão
O amor nunca será uma ilusão
Eu percebo aquilo embora aquilo seja

domingo, 13 de maio de 2012

_______13

Sinto-te-me com uma saudade imensurável. Sintetizo toda nossa dor com a qual não sabemos lidar. Eis-nos aqui e acolá por chorar. Nossas lágrimas oceânicas e todos nossos amores afogados. Eis-nos diante de teus olhos tão misericordiosos a nos volvei. Pois diante do desterro de quem nunca nasceu, Ninguém sabe lidar muito bem, Ninguém sabe amar muito bem exceto tu. Excetuo-te, pois, sei que a vida é um mergulho profundo com o qual nos afogaremos, perderemos o nosso fôlego e retornaremos recém-morridos depois de tantas pequenas e grandes mortes de pedaços, nossos pedaços, com os quais vão apodrecendo e o câncer contagia.

Não há cura para o câncer da perda, e todos tratamentos sempre serão malogrados, a não ser que você saiba amar outras pessoas. E sei que amor não é apenas saber, nem apenas pessoas. Amor é além disso, amor é além. E sei que, do além, ela me espera. Eu que voltarei sem fôlego. O corpo surgindo do mar. E eu vou brotando para ela me acolher, pois só ela sabe me acolher.

Meus cabelos pretos dançam de lágrimas. Só vai entender a vida quem souber dançar a dança das lágrimas. Nossos amores afogados... Mas eu me afoguei em outros mares? Não sei... Só sei que broto no, do e p’ro Oceano no, do e para os braços dela que estavam me esperando há tempos em cima do Oceano. Quem está em cima não vê o que ocorre em baixo com muita clareza e vice-versa. Não há muita clareza na vida. Nem na morte. Nem nos meus cabelos pretos.

A todas pessoas que são deixadas de lado, a todas crianças sem pais nas festinhas escolares que esperam seus pais e os mesmos não aparecem pois nunca lá estão, a todas pessoas que sofrem de verdade com o amor, a todas pessoas que sabem dançar a dança das lágrimas, a todas pessoas que são pétalas soltas, desgarradas da flor, a todas essas pessoas, meu mais sincero amor, minha mais, sem cera, felicidade de poder estar junto... Enquanto escrevo, meus dedos tremulam. Enquanto vocês foram escritos, algo tremulou. Nascemos do tremer, viveremos tremendo, viverei para quem treme, pois eu tremo numa freqüência epiléptica eterna para toda e para nada eternidade e não eternidade. Só sentirá minhas vibrações quem foi de lado, quem foi de cantos, quem sabe cantar e quem sabe dançar a dança das lágrimas.

Sinto-te-me os corações batendo. Entregaram-me uma flor de treze pétalas. Peço desculpas por ter desgastado ao logo do meu caminho. Meu caminho vida-morte morte-vida. Espero ansiosamente pelos braços dela que para com quem sem braços retorna a abraçar.

Eis-nos aqui em lágrimas devagar lendo nossos olhos. Não há vagar, mas muitas vagas para quem devagar ler. Vagas em espaços invisíveis assim como as lágrimas dançantes nos nossos olhos que há muito tempo não são lidos com amor e carinho por outros olhos.

Aos poucos... Vou emergindo...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Monólogo

Houve um tempo que acreditei no amor
Houve um tempo que pensei que tudo daria certo

Faça-me escrever novos versos
Faça-me escrever novos versos

Estou caindo... Caindo mais uma vez
Caindo da queda... Caindo do aqui de outrora que já caí até
Caindo para sempre... Sempre caindo
Cairei mais uma vez

Sempre que se sentir sozinho
, lembre-se de mim,
lembre-se de mim
como as flores lembram
dum amanhecer que nunca foi
numa noite longa e escura como sua mente.

Sempre que se sentir sozinho
, lembre-se de mim,
pois a solidão nos liga
como pérolas e pérolas num colar

Faça-me escrever novos versos
Faça-me escrever novos versos

Eu sou de versos
Versos e letras
Letras e versos
e vice-versa
e versa e vice
Vice bem muito
Pois (con)versarei contigo

Não, você não será capaz de atravessar meu
Rio de lágrimas
. Acostume-se com o rio, (não) navegue!

Sou de silêncios, silêncios
de noites e noites em claro
Silêncios, lágrimas e saudades
Saudades do que era meu e não é mais
Quem sabe nunca foi meu

Faça-me escrever novos versos
Faça-me escrever novos versos

Deixe-me pelo avesso
Vista-me pelo inverso
Não preciso pedir para inverter o que digo
Seus ouvidos adoram o que sussurro
Suas mãos adoram o que te entrego
E agora é todo seu
Seu to(d/l)o... Seu e de todos
Somos seres somoS
E seremos to(d/l)os
Você só escuta o que você quer

Você não sabe escrever novos versos
Eu não escrevo, eu sou escrito

Mas para que dizer isso se você não entende

E estou caindo, caindo novamente
Caindo...
Caindo do nível zero
Poucos conhecem o que há...
E de tão sub, ele aparecerá depois sobre
Não sentirei falta
Pois só posso sentir falta do que tive
O que nunca tive, não conheço
E eu vou continuar escrevendo

Às vezes preciso encarar o que é escrito em mim
Encarar o que escrevo
Se eu precisasse de estímulo para isso, nem teria começado

Houve um tempo que acreditei no amor
Eu sonhei.
..Desculpa..
. Você me acordou desta vez.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

E... Cate Os Restos

E se... ... ... Se
... Se não houvesse o se...
Tudo (se)ria mais decidido.

(Sou preto, preto como a noite
Sombrio e divino como o universo
Sombrio e divino como qualquer ser humano
Somos feitos de água
Somos feitos de restos)

Sou amigo dos restos...
Acho tudo nos restos.
O resto é bem simples e complexo
Gosto disso.
A beleza dos restos
Junte os restos
Sou feito de restos
Resta você
saber e interpretar...

Eu brinco na (in)definição,
eu brinco com a (in)definição
...
Assim, eu (in)defino(-me)
...
Assim, eu (não) sei quem sou(?)
...
Brinque,
mas não brinque por muito tempo,
pois quem brinca por muito tempo,
acaba virando de brinquedo.

E

Nunca darei dicas donde estou para ti
Se queres me achar...
Terás de procurar...
Não é questão de amor próprio
É questão de nem eu saber onde estou
e olhe lá se estou em algo...
Quer saber?
Não faças questões.

Aos adolescentes cults
o meu eterno desprezo!

Quando eu realmente quero algo,
não há quem me detenha
... Sei que o mundo não gira ao meu redor
, mas estou
sempre a procurar
o centro das coisas
e
descobri
que há vários centros nas bordas,
que eu encontre issos antes do centro em si.

Vontades vêm e vão
Amores vêm e vão
Mas não quero que você vá
Mas quem sou eu para querer algo
?
Mas quem é você para mandar em idas e vindas
?
Haverá um dia que eu não suportarei teu sorriso
.
Haverá um dia que você não suportará quem eu sou
.
Quem eu sou
?

Pensando
, não gosto muito quando penso profundamente,
não me deixa pensar
, sou escravo de alguns pensamentos.

Como a Igreja diria (com licença da palavra) na escravidão
:"negros não têm alma".

Com isso
, sei que apenas tenho cabeça,
e
ela pensa
e pensa
descontroladamente...